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terça-feira, 10 de março de 2020

Covid-19. Porquê Itália?

Covid-19. Porquê Itália? “Outros países poderão enfrentar situações semelhantes num futuro próximo”


VINCENZO PINTO/AFP/GETTY IMAGES

No dia em que o primeiro paciente italiano com Covid-19 deixou os cuidados intensivos, o primeiro-ministro alargou as medidas de quarentena a todo o país. Itália é o segundo caso mais grave em todo o mundo, depois da China. “O que está a acontecer será uma importante experiência para a Europa”, advertiu uma fonte da OMS em declarações ao Expresso

Mattia dirigiu-se a um hospital da cidade de Codogno, no norte de Itália, a 20 de fevereiro. O teste ao Covid-19 deu positivo, e este gerente de 38 anos da Unilever tornou-se o primeiro paciente italiano do coronavírus. Esta segunda-feira, o conselheiro de assistência social da região da Lombardia, Giulio Gallera, anunciou que Mattia “começou a respirar autonomamente” e deixou os cuidados intensivos do hospital de Pavia onde ainda se encontra. Segundo o jornal “La Repubblica”, a sua mulher, grávida de oito meses, já regressou a casa.
Apesar da evolução favorável do primeiro paciente confirmado, Itália tornou-se em poucos dias o segundo país com o maior número de casos e mortos associados ao novo coronavírus em todo o mundo, depois da China. De acordo com os dados mais recentes, há 9.172 casos em Itália e 463 mortos. Na China continental, estão contabilizados até à data 80.754 casos e 3.136 mortos. A nível global, o número de casos ultrapassa os 113 mil, o de mortos os quatro mil e há quase 64 mil recuperações.
Quase um mês antes do início do surto já o Ministério italiano da Saúde havia criado um grupo de missão e suspendido todos os voos de e para a China, declarando um estado de emergência. Semanas antes de o teste a Mattia ter dado positivo, o hospital Luigi Sacco, em Milão, estudara três sequências genéticas diferentes encontradas na região da Lombardia, confirmando o Covid-19. Sendo assim, como se explica que o aumento do número de casos e de mortes tenha sido explosivo naquela que é de longe a situação mais grave na Europa?

“O HOSPITAL AGIU COMO UM MULTIPLICADOR”

Uma pista apontada na imprensa italiana é que o vírus tenha chegado a Itália antes da proibição de viajar. “É possível que, quando o Covid-19 chegou ao país, ainda estivesse em incubação e que a infeção se tenha desenvolvido em alguém com sintomas ligeiros ou sem sintomas”, explicou o chefe do departamento de doenças infecciosas daquele hospital de Milão, Massimo Galli, ao jornal “Corriere della Sera”.
ANADOLU AGENCY/GETTY IMAGES
No final de dezembro, um número invulgar de casos de pneumonia acorreu ao hospital de Codogno, o mesmo a que Mattia se dirigiu em fevereiro, segundo relatou o chefe da unidade de emergência, Stefano Paglia, ao “La Repubblica”. Alguns destes pacientes poderão ter sido portadores do coronavírus, sendo tratados como se padecessem de uma doença típica do inverno.
O próprio hospital terá sido decisivo na propagação do vírus, devido à circulação contínua de pessoal médico e de pacientes todos os dias. “O hospital agiu como um multiplicador”, reconheceu Walter Ricciardi, membro do conselho executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS) e consultor do Ministério italiano da Saúde, em declarações à Al Jazeera.

VÍRUS PODERÁ ESTAR CONTROLADO NA CHINA

Vários especialistas atribuem o caos inicial à falta de um plano unificado de contingência em todas as regiões do país, que envolvesse hospitais públicos e privados. A tutela indica que a idade média das mortes por coronavírus é de 81,4 anos. De facto, os especialistas referem que o vírus é particularmente perigoso para os idosos e para pessoas com condições de saúde mais debilitadas.
Questionada pelo Expresso sobre o caso italiano, a consultora de comunicação da OMS Stephanie Brickman preferiu começar por fazer uma abordagem mais global. “Os casos de Covid-19 estão a aumentar devido a importações e a alguma propagação local. À medida que os contactos das pessoas infetadas são rastreados e cada vez mais pessoas são submetidas a testes, o número de casos aumenta. Quando uma pessoa morre de Covid-19, o momento da infeção ocorreu geralmente duas semanas antes, pelo que o aumento de mortes é infelizmente um sinal de evolução do surto”, sublinha.
Os últimos números divulgados na China e na Coreia do Sul parecem indicar que o vírus poderá estar controlado – ou em vias de o ser – no nordeste asiático, ainda que no primeiro caso, em fevereiro, já se tenha assistido a um crescimento explosivo no número de casos de um dia para o outro. Mas mesmo que essa tendência de contenção se confirme naquela região do globo, os casos na Europa e na América do Norte estão em rápida expansão.

“OS HÁBITOS TÊM DE SER ALTERADOS. FIQUEM EM CASA”

Submetida às medidas mais restritivas desde a II Guerra Mundial, a totalidade da população italiana está em quarentena. Ao anunciar a extensão das medidas de uma mancha considerável do norte do país para todo o território, o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, declarou que “toda a Itália será uma área protegida”. “Não há tempo. O contágio está a aumentar”, acrescentou. É o “bem de Itália” que está em jogo, afirmou ainda, decretando: “Os hábitos têm de ser alterados. Fiquem em casa.”
ANADOLU AGENCY/GETTY IMAGES
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, já elogiou o que descreveu como “sacrifícios genuínos” dos italianos. Segundo o Governo, as medidas restritivas estarão em vigor até 3 de abril. O Executivo prometeu aumentar ainda mais os gastos numa “terapia de choque maciça” para compensar o impacto económico do coronavírus. Mas, através da sua ministra do Interior, Luciana Lamorgese, também advertiu: quem sair das “regiões de contenção” arrisca-se a uma pena de prisão de três meses e a uma multa até 206 euros.
“Há provas de que as medidas de contenção adotadas na China desaceleraram o surto. Será necessária uma série de intervenções para ajudar a abrandar a propagação, incluindo melhorias na higiene respiratória e das mãos e autoisolamento para aqueles que não estão bem e que apresentam doenças respiratórias agudas”, adverte Stephanie Brickman. “A OMS está sempre disponível para aconselhar mas, em última análise, os Estados-membros tomam decisões de acordo com as suas próprias situações e contextos culturais”, acrescenta.
Em protesto contra a suspensão das visitas, outra das medidas de propagação do vírus, seis presos de uma cadeia de Modena morreram, segundo informou esta segunda-feira o diretor-geral das prisões, Francesco Basentini. Os reclusos ocuparam toda a prisão – incluindo uma enfermaria, onde se apoderaram de vários fármacos, designadamente metadona – e atearam fogo a um bloco de celas. Dois deles morreram de overdose e um outro em resultado da inalação de fumo. A causa da morte dos outros três encontra-se sob investigação. O Ministério da Justiça anunciou que em várias outras prisões os reclusos amotinaram-se ao saberem da suspensão das visitas.
A responsável da OMS ouvida pelo Expresso deixa o aviso: “O que está a acontecer em Itália será uma importante experiência de aprendizagem para a Europa. Outros países poderão enfrentar situações semelhantes num futuro próximo.”
Por HÉLDER GOMES Expresso

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