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segunda-feira, 1 de junho de 2020

TECNOLOGIA Por EL PAIS

Por que o conflito entre Trump e o Twitter esconde uma das batalhas de nosso tempo
Redes sociais procuram um equilíbrio quase impossível entre limitar conteúdos e a liberdade total


O presidente Donald Trump mostra a capa do jornal 'New York Post', onde aparece um funcionário do Twitter. Trump se queixa pelo trato recebido pela empresa.DOUG MILLS / AFP

Nessa semana aconteceu algo impensável no mundo das redes sociais. O Twitter alertou que três mensagens de Trump continham mentiras e promoviam a violência. Na terça-feira o presidente tuitou que o voto por correio na Califórnia era “substancialmente fraudulento”. O Twitter acrescentou embaixo da publicação um link: “Esses são os fatos sobre o voto por correio”, no qual a afirmação do presidente era corrigida.


Donald Trump explodiu. Na quinta-feira assinou uma ordem executiva, que não precisa do trâmite no Congresso, para colocar freios a um dos pilares da Internet desde 1996, que determina que as redes sociais e os comentários em um blog não podem ser denunciados pelo que os usuários escrevem. Ao contrário do que acontece nos veículos de comunicação tradicionais na Internet as plataformas estão isentas de controlar tudo o que é publicado. Se um artigo ameaça de morte alguém, o responsável é o próprio jornal. Se essa ameaça é feita no Twitter, o Twitter não o é. A União Europeia promulgou em 2000 uma diretiva com conteúdo semelhante.



Mas o Twitter não parou por aí. Na mesma quinta-feira ocultou uma publicação de Trump por “glorificação da violência”. A postagem dizia que “quando começam os saques, começam os tiros”. A frase vem de um policial de Miami em 1967, em plena luta pelos direitos civis. A postagem podia ser vista após a advertência do Twitter ser lida. A guerra estava declarada.

Não era a primeira vez que Trump se aproximava da transgressão das normas comunitárias do Twitter. Nessa mesma semana acusou um apresentador de televisão de matar sua suposta amante há quase duas décadas, uma jovem que morreu de causas naturais. Seu viúvo implorou ao Twitter em uma carta pública que retirasse as mensagens de Trump. O Twitter não o fez. Trump disse de tudo no Twitter: ameaçou guerras nucleares e chamou uma ex-assessora de “cachorra” e “ser inferior”.


Twitter Safety
@TwitterSafety
We have placed a public interest notice on this Tweet from @realDonaldTrump. https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1266231100780744704 …

Donald J. Trump
@realDonaldTrump
Respondendo a @realDonaldTrump
....These THUGS are dishonoring the memory of George Floyd, and I won’t let that happen. Just spoke to Governor Tim Walz and told him that the Military is with him all the way. Any difficulty and we will assume control but, when the looting starts, the shooting starts. Thank you!

4.838
04:39 - 29 de mai de 2020
Informações e privacidade no Twitter Ads
2.431 pessoas estão falando sobre isso
As plataformas veem como seu papel cresce no debate público. O Twitter, Facebook e YouTube eram ferramentas importantes em 2012, quando Barack Obama foi reeleito, mas nenhuma foi essencial. Seu peso cresceu nesses anos. As eleições de 2016 foram o maior exemplo, à margem dos russos. O uso da publicidade no Facebook por parte da campanha de Trump foi com certeza um dos principais motivos de seu sucesso.

Da mesma forma que a lei norte-americana de 1996 impede que as plataformas sejam denunciadas pelo conteúdo que seus usuários publicam, também pede que eles restrinjam de “boa fé” todo aquele material que lhes pareça “obsceno, lascivo, libidinoso, baixo, excessivamente violento, assediador e de algum modo ofensivo”. Esses adjetivos deixam uma porta aberta à pornografia, apologia do terrorismo e desinformação.

A pandemia da covid-19 trouxe um novo nível de risco. A desinformação e as mentiras podem levar a problemas graves de saúde. As redes criaram todo o tipo de medidas novas e mais intrusivas. “A pandemia destaca como afirmações falsas sobre curas e riscos são uma questão de vida ou morte, especialmente quando vêm do líder do país. Isso causou uma pressão tremenda às plataformas para vigiar a desinformação de figuras públicas”, diz Lucas Graves, professor da Universidade de Wisconsin-Madison.

O Twitter se orgulha de ser uma plataforma a favor da liberdade de expressão. Sua opção, deliberada durante anos, foi criar métodos, como etiquetas e cortinas, que alertam sem suprimir. A ação contra Trump é o passo definitivo. É difícil que volte atrás. Além de Trump também foi etiquetado um porta-voz chinês e uma imagem falsa do policial que estrangulou com seu joelho o pescoço de George Floyd em Minnesota.

Por que o Facebook não
O presidente Trump colocou as mesmas mensagens no Facebook e elas continuam lá, sem nenhuma advertência. “O Facebook não deve ser o árbitro da verdade”, disse Mark Zuckerberg após a primeira ação do Twitter. Jack Dorsey, fundador do Twitter, respondeu que sua medida não lhes faz “árbitro da verdade”. Suas regras comunitárias são muito rígidas com duas coisas: coronavírus e eleições. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro também foi alvo da plataforma recentemente, ao ter dois vídeos apagados por “violação das regras”. Em ambos, ele se encontrava com seguidores, promovendo aglomerações, e dizia que o remédio contra a doença já era uma “realidade”, algo que não é verdade.

O Facebook tem regras comunitárias no fundo muito parecidas às do Twitter, ainda que não tenha a opção de adicionar etiquetas de alerta ao usuário: o Facebook deixa uma postagem ou a apaga, sem meio termo. Aqui é onde começam todas as nuances e debates impossíveis sobre o que cada rede faz. Zuckerberg contou em uma postagem como essa decisão continua sob sua responsabilidade e talvez um dia aperte o botão vermelho: “Achamos que se uma postagem incita violência”, escreveu sobre a mensagem de Trump dos distúrbios de Minnesota, “deveria ser suprimida sem levar em consideração se é noticiável, mesmo se vier de um político”.

Zuckerberg decidiu que não. Dorsey decidiu que deveriam fazer alguma coisa.

Os especialistas têm opiniões distintas. Os mais próximos ao jornalismo acham que esse equilíbrio entre liberdade e aplicação de políticas é o mais correto: “Muitos especialistas recomendam uma combinação de políticas claras, aplicação consistente e respostas à desinformação que foquem em limitar interações e proporcionar informação, no lugar de supressões diretas”, diz Rasmus Nielsen, diretor do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo. As ações do Twitter representam uma nova vontade de tratá-lo da mesma forma que o restante. “Não falamos de censura, e sim de moderação de conteúdo consistente e aplicação de políticas”, acrescenta.


Por  JORDI PÉREZ COLOMÉ ( EL PAIS )



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