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terça-feira, 9 de novembro de 2021

ÚLTIMO ADEUS

 Uma multidão de 100 mil pessoas se despede de Marília Mendonça

            Cenas de lamento e de comoção marcaram o velório da cantora

Fãs seguem o caminhão do Corpo de Bombeiros com o corpo de Marília Mendonça: despedida marcada pela emoção - (crédito: Ed Alves/CB/DA.Press)

Goiânia — Na lapela da blusa de Marta Aparecida da Silva, 57 anos, uma rosa de papel feita à mão por ela mesma. Especialmente para oferecer, simbolicamente, à cantora Marília Mendonça. "É por causa da música A Rosa embriagada. Tem tudo a ver com minha sobrinha. A Marília foi respeitosa até em criar a letra sobre o sofrimento das garotas de programa. A letra, do início ao fim, fala sobre isso. Minha sobrinha é uma menina linda e está nessa vida. Ela sofre, mas é exatamente uma representatividade de todas as rosas embriagadas, que são as garotas de programa", contou ao Correio.
Marta sugere que as pessoas prestem atenção à letra da canção: "Uma rosa tão bonita dentro de uma garrafa/E morreu embriagada sozinha na madrugada/ Era moça de família, meu amor na adolescência/A mulher que eu queria da mais pura inocência". "Prestem atenção e valorizem mais ainda a Marília, pois ela fazia tantas outras letras que buscassem, que respeitavam e que representavam essas mulheres", aconselhou.

Marta se engasga, leva as mãos aos olhos e chora. Lembra que, no velório do também cantor sertanejo Cristiano Araújo, morto em um acidente automobilístico em 2015, foi quem colocou a bandeira do Brasil sobre o caixão. Marília Mendonça morreu na queda de um bimotor em Piedade de Caratinga, a 306km de Belo Horizonte, na tarde de sexta-feira. Os outros quatro ocupantes da aeronave também morreram: o produtor Henrique Ribeiro, o tio da cantora e assessor Abicieli Dias Silveira Filho, o piloto Geraldo Martins de Medeiros Júnior e o copiloto Tarcisio Pessoa Viana.

Marta espera o momento de entrar no ginásio Goiânia Arena. Como tantas outras 100 mil pessoas, a cabeleireira e estudante enfrentou o sol forte do sábado para homenagear Marília. Trouxe a rosa embriagada ao peito. Trouxe o reconhecimento a uma artista que também reconheceu sua sobrinha como mulher sofrida. Coisas que somente a arte faz... À beira da Avenida L, a via que margeia o complexo esportivo do Goiânia Arena e do Estádio Serra Dourada, um grupo espera o corpo. Uma senhora chora e conta que a música de Marília Mendonça "devolveu-lhe" o marido, depois de um divórcio. "Nós dois gostávamos muito dela."

Pouco mais adiante, Sandra Azevedo, 44 anos, esquece o cansaço depois de 1.290km de voo. Sabe que o sacrifício vale a pena. Ela embarcou em Curitiba, na noite de sexta-feira, rumo a Brasília. Na capital federal, alugou um carro, às 4h de ontem, e encarou mais de 200km de viagem até Goiânia. "Chegamos aqui às 6h. Era meu sonho conhecê-la e não deu certo. É uma despedida, né?", disse à reportagem. A primeira música que conquistou Sandra foi Impasse, depois Infiel, A culpa e A ciumeira. "Eu curto a Marília no Facebook e a acompanhava. Com a pandemia se aproximando do fim, eu tinha muita esperança de ir ao show dela. Não deu certo."

Para Sandra, Marília deixa um legado muito bonito para o Brasil. "Ela conquistou o país todo. É triste estar aqui hoje para fazer a despedida, mas, pelo menos, eu vou conhecê-la. Era meu sonho", resumiu. Legado que vai além da música. Fala de empoderamento da mulher, da força feminina, da inclusão social.

Filas enormes
São 14h30 e, lá fora do ginásio, em meio à música Infiel entoada entre lágrimas e salvas de palmas, é possível escutar um bem-te-vi. Dentro do ginásio, fãs passam em fila diante do caixão. Jogam rosas vermelhas sobre o corpo. Alguns deles recebem acenos de beijos da cantora Maiara, da dupla com Maraísa. Uma mulher desmaia em frente ao caixão, é socorrida por bombeiros e levada para um canto do ginásio."

Com uma faixa escrita "Marília Mendonça para sempre" na cabeça. Andressa Suaine, 28 anos, acaba de deixar o ginásio em prantos. "Era uma pessoa muito simples. A gente hoje não... Não tô acreditando. Eu gostava de todas as músicas dela", desabafa.

A atendente Jessica Oliveira, 34, relata que chegou à fila para o velório às 22h de sexta-feira. "O sentimento é de muita dor. Ainda estou em choque. Pela manhã a ficha começou a cair e deu para entender o que está acontecendo", comenta. A homenagem de Jessica para a cantora é o "meu silêncio". "Palavras não dizem mais do que a dor", explica. "Marília Mendonça será eternamente a nossa rainha. Jamais será esquecida e nunca haverá outra igual", garante.

Para Jessica, é impossível apontar uma música favorita."Todas são especiais, todas contam com um pedacinho de cada mulher, a história de cada mulher. Não tem uma mulher do Brasil e do mundo que não se identifique com a música dela", opina. Wilma estava na fila desde as 6h de ontem. Ela deve à cantora o sucesso na vida profissional. O restaurante em Açailândia, no interior do Maranhão, cresceu por conta da música de Marília. "Para mim, ela representa tudo. Tenho um pequeno restaurante em minha cidade. Por meio das músicas dela, ganhei tanto cliente! Eles chegavam e pediam as canções da Marília Mendonça", disse, enrolada com a bandeira do Brasil. Wilma sempre soube que a cantora faria muito sucesso. "Ela vai ser pra sempre", desabafou, antes de cantar Infiel e Estrelinha, composição de Di Paulo e Paulino, dupla que também esteve ontem no Goiânia Arena.

Já Ilza da Costa Oliveira, 58 anos, mandou forças à família de Marília para superar essa tragédia. "Um abraço para o Léo, que agora vai ficar com a avó, e que Deus dê muita força para essa família superar essa tragédia", disse. Natural de Goiânia, o empresário Valdir Carvalho da Silva, 63 anos, destacou a qualidade musical e se disse tocado pelo fato de que Marília morreu muito jovem. "Ela tinha a vida inteira pela frente. Infelizmente, o destino é esse, né? Não tem como prever", resignou-se. Questionado sobre as músicas preferidas, ele sorriu e respondeu: "Todas! Desde as primeiras". "Passar diante do corpo dela foi muito doído. Desde a notícia do acidente, o choque tem sido muito grande", acrescentou. Valdir confidencia que foi o filho, Luis Miguel, 9 anos, quem o levou. "Eu achava ela uma cantora muito legal. Gostava de ouvir as músicas dela com a minha mãe em todos os almoços de família. A gente passou ali e nem consegui vê-la", respondeu o menino.

Os caminhões do Corpo de Bombeiros levando os caixões de Marília e do tio e assessor Abiciele Silveira deixaram o Goiânia Arena às 17h16. Pelas ruas do Jardim Goiás, na capital goiana, várias pessoas esperavam pelo caminho para prestar o adeus. O cortejo, acompanhado de batedores da polícia e de ambulâncias, tomou a GO-020 e foi seguido por fãs dentro de carros. Sobre o céu, helicópteros e drones. Mais à frente, sobre um viaduto, dezenas de pessoas aguardavam a passagem. Todos fiéis à mulher que fez história na música brasileira. Até o cemitério Parque Memorial de Goiânia foram cerca 45 minutos.

Um dos momentos mais emocionantes foi justamente a chegada para o sepultamento. Os fãs estavam ali, atônitos e inconformados, diante da entrada. Ao pôr do sol, pelo menos 12 ônibus de duplas sertanejas, como Israel e Rodolffo, Maiara e Maraísa, Henrique e Juliano, Di Paulo e Paulino, e do cantor Gusttavo Lima, fizeram um buzinaço em homenagem à "rainha da sofrência".

O público e os jornalistas não puderam entrar no cemitério. Do lado esquerdo da portaria, um casal se abraçava e cantava músicas de Marília Mendonça, em lágrimas. A chef de cozinha Vivian Pimentel, 39 anos, e o marido, Fábio, estavam inconsoláveis. Na tarde de sexta-feira,vestidos de palhaços, vendiam balas no Parque Vaca Brava, em Goiânia. Sonhavam em juntar dinheiro para retornar a Belo Horizonte, sua terra natal. "Fazíamos a alegria das pessoas, disfarçados de palhaços. Chegávamos à praça quando recebemos a notícia. Foi um choque. Voltamos para casa na mesma hora. Mesmo assim, fomos espalhando alegria pelo caminho com as músicas dela", relatou.

O corpo de Marília foi sepultado por volta das 18h30, na presença de familiares e de amigos.

*Os repórteres foram enviados especiais a Goiânia.


                            Foto Ed Alves 

Rodrigo Craveiro
Raphael Felice
postado em 07/11/2021 06:00
por correio Braziliense




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